Um criador de conteúdo que viaja pelas Américas com um Tesla Model X passou por um aperto no deserto do Atacama, no Chile, e precisou usar painéis solares de emergência para conseguir seguir viagem. O caso, registrado em vídeo, expõe um dos maiores desafios da mobilidade elétrica em longas distâncias: a falta de infraestrutura de recarga em regiões remotas.
O aventureiro Sandro van Kuijck, que produz conteúdo no YouTube sob o nome EverydaySandro, está há 3 anos viajando de norte a sul do continente com seu Model X, apelidado de Beluga. A jornada começou em Tuktoyuktuk, no Canadá, e segue até Ushuaia, na Argentina. O Chile foi o 14º país da expedição individual.
O SUV foi adaptado para vida fora da estrada. O veículo recebeu cozinha retrátil, fogão por indução, água corrente, geladeira, espaço para dormir e pneus para todo tipo de terreno. No capô, Van Kuijck instalou um arranjo solar de 287 watts ligado a uma bateria doméstica EcoFlow Delta 2 de 2 kWh, usada para os equipamentos da cabine e, em situações de emergência, para ajudar a alimentar a bateria principal.
Foi justamente essa solução que entrou em ação no Atacama. Depois de carregar o carro até 95% em um ponto da rede Copec, o motorista subestimou o consumo causado pela subida até 3.000 metros de altitude e pelos fortes ventos do deserto. Quando a autonomia caiu para 37 km e o próximo carregador ainda estava a 42 km, ele parou no acostamento da Rodovia Pan-Americana e abriu os painéis solares.
O resultado foi lento, mas suficiente para manter o carro vivo. Com entrada de 180 a 200 watts de energia solar, o veículo ganhou cerca de 1 a 2 km de autonomia por hora. Em um carro a combustão, uma pane seca no meio do deserto não teria solução parecida. No elétrico, o painel solar ao menos manteve a bateria de alta tensão funcionando enquanto o motorista buscava ajuda.
Ainda assim, o problema piorou quando a bateria doméstica também se esgotou. Van Kuijck ligou para 5 empresas de reboque, mas nenhuma aceitou ir até o local, a 30 km dali. A saída veio depois, quando uma equipe de obras da região permitiu que ele conectasse o carro a um gerador industrial.
Mais tarde, amigos encontrados na estrada conseguiram um guincho, que levou o carro até Calama e a um carregador rápido da Copec. O serviço custou US$ 135. Já plugado, o Tesla passou a carregar entre 36 kW e 40 kW, o suficiente para seguir viagem em cerca de 2 horas.
O episódio escancara uma limitação que ainda pesa sobre os veículos elétricos na América do Sul. A Tesla inaugurou sua rede de Superchargers no Chile no fim de 2024, mas a cobertura continua concentrada em Santiago e nas principais rotas. Em 2026, Tesla e Copec anunciaram uma parceria para ampliar os pontos de recarga no país, com estações de até 250 kW, mas o interior chileno ainda segue como uma grande zona sem recarga.
O caso também revelou outro problema prático. O sistema de navegação do carro ainda acreditava que o veículo estava no México e, por isso, não encontrava os carregadores chilenos. Sem ajuda do roteamento interno, o motorista ficou ainda mais vulnerável em uma das regiões mais isoladas do continente.
A situação não é exclusiva da Tesla. Em toda a América do Sul, a infraestrutura para veículos elétricos cresce, mas ainda está fortemente concentrada nas capitais e nos grandes centros urbanos. O Chile prevê vender apenas veículos elétricos novos a partir de 2035, mas a rede necessária para cobrir viagens de longa distância ainda está atrás dessa meta.

0 Comentários