Um laudo independente encontrou traços de cromo hexavalente, substância classificada como cancerígena, além de arsênio e altos níveis de lítio na água descartada pela refinaria de lítio da Tesla em Robstown, no Texas. O caso levou o órgão responsável pela drenagem da região a enviar uma notificação exigindo que a empresa suspenda o lançamento do efluente até novas conversas.
A refinaria, que recebeu investimentos de quase US$ 1 bilhão, vinha sendo apresentada pela Tesla como uma operação com processo “sem ácido”, supostamente mais limpo que o refino tradicional de lítio. A empresa dizia que o método alcalino gera subprodutos menos perigosos, como areia e materiais à base de calcário, em vez dos resíduos químicos comuns em processos convencionais.
O problema ganhou força após a análise feita pela empresa especializada Eurofins Environment Testing, em 10 de abril. Uma amostra composta de 24 horas, coletada em 7 de abril, mostrou cromo hexavalente em 0,0104 mg/L, ligeiramente acima do limite de relatório do laboratório, e arsênio em 0,0025 mg/L, abaixo do padrão federal de água potável, mas ainda presente. Nem um nem outro aparecem na licença de descarte emitida à Tesla.
Além dos metais pesados, a composição da água preocupa por outros motivos. O laudo apontou sódio em 302 mg/L e cloreto em 382 mg/L, o que indica uma água salobra, considerada de 10 a 20 vezes mais salgada do que o normal para cursos d’água da região. Também foram encontrados estrôncio, fósforo e amônia em níveis elevados.
Esse efluente segue por uma vala de drenagem até o Petronila Creek e, depois, chega à Baía de Baffin, área tradicional de pesca que já enfrenta piora ambiental.
A situação expõe uma falha importante na fiscalização. A Comissão de Qualidade Ambiental do Texas havia concedido a licença de descarte à Tesla em janeiro de 2025 e realizou uma vistoria em fevereiro de 2026. O órgão concluiu que a empresa estava em conformidade, mas analisou apenas poluentes convencionais, como sólidos dissolvidos, cloretos, sulfatos e óleo e graxa. Metais pesados não entraram na checagem.
Outro ponto sensível é que o lítio, principal material processado na refinaria, nem sequer aparece entre os itens obrigatórios de monitoramento da licença de efluentes. O distrito de drenagem afirma que não foi informado durante o processo de autorização. O advogado Frank Lazarte classificou os resultados do laboratório como “bastante perturbadores”, segundo o Texas Tribune.
A Tesla disse que monitora e testa regularmente a água descartada e informou que está analisando a notificação recebida. A empresa afirmou ainda que pretende colaborar com as autoridades.
Especialistas consultados pelo distrito recomendaram a instalação de uma estação própria de tratamento de efluentes, com osmose reversa, sistema de remoção de metais pesados e uma solução para destinação do concentrado salino.
O caso surge em um momento delicado para a região. Corpus Christi, cidade localizada a cerca de 26 km da refinaria, enfrenta uma crise hídrica severa. O Lago Corpus Christi opera com cerca de 9% da capacidade, enquanto o reservatório Choke Canyon está abaixo de 8%. Autoridades municipais já projetam restrições emergenciais de água até setembro de 2026 se a situação não melhorar, e instalações industriais respondem por até 60% do consumo local.
A refinaria da Tesla não é a única operação de Elon Musk a atrair atenção por questões ligadas à água. O centro de dados da xAI em Memphis foi apontado como consumidor de até 1,5 milhão de galões por dia para resfriamento, o que levou à construção de sua própria estação de tratamento de efluentes, avaliada em US$ 80 milhões.
A Tesla também já enfrentou questionamentos ambientais em outras fábricas, incluindo acusações na Gigafactory de Austin e problemas relacionados à poluição da água na Gigafactory de Berlim.

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