Tesla quer construir maior fábrica de chips do mundo, diz Elon Musk

O empresário Elon Musk anunciou no sábado que a Tesla pretende iniciar dentro de sete dias o chamado Projeto Terafab. A iniciativa prevê a construção do que Musk descreve como a maior fábrica de semicondutores do mundo.


A proposta chama atenção porque a Tesla não possui experiência na fabricação de chips. Especialistas apontam que até mesmo o projeto mais próximo dessa área, a produção própria de células de bateria, enfrentou anos de dificuldades para atingir metas anunciadas pela empresa.

Histórico com baterias levanta dúvidas

A estratégia lembra o que aconteceu em setembro de 2020, quando a Tesla revelou a célula de bateria 4680 durante o evento Battery Day. Na época, Musk prometeu uma capacidade interna de produção de 100 gigawatts-hora até 2022, redução de 56% no custo das baterias e a possibilidade de lançar um carro elétrico de US$ 25.000.

Os objetivos não foram alcançados dentro do prazo. A meta de 100 gigawatts-hora em 2022 ficou muito distante da realidade. No início de 2025, a produção anual das células 4680 era estimada em cerca de 20 gigawatts-hora, apenas uma fração da meta anunciada.

Outro desafio foi o processo de eletrodo seco, peça central na promessa de reduzir custos. A tecnologia se mostrou mais difícil do que o previsto. Durante anos, a Tesla conseguiu aplicá-la apenas no ânodo, enquanto o cátodo continuou dependendo de materiais produzidos por fornecedores externos.

As células também não entregaram totalmente os ganhos anunciados no evento de 2020, que prometia cinco vezes mais energia, seis vezes mais potência e aumento de 16% na autonomia.

Na prática, as baterias 4680 foram utilizadas inicialmente em apenas um modelo, a Tesla Cybertruck, veículo que teve desempenho comercial abaixo do esperado. A cadeia de fornecimento dessas baterias também sofreu impacto. A empresa sul-coreana L&F Co. reduziu em 99% o valor de seu contrato com a Tesla.

Mesmo assim, a empresa afirma ter alcançado avanços recentes. Segundo a Tesla, no final de 2024 as células 4680 passaram a apresentar o menor custo por quilowatt-hora entre todas as baterias que a companhia produz. A tecnologia também voltou a ser usada no utilitário esportivo Tesla Model Y.

Fabricar chips é ainda mais complexo

Especialistas afirmam que a produção de semicondutores é muito mais complexa que a fabricação de baterias. A Tesla até montou uma equipe forte de projeto de chips ao longo dos anos.

A empresa contratou em 2016 o renomado arquiteto de semicondutores Jim Keller e posteriormente trouxe Peter Bannon, ex-integrante da equipe PA Semi da Apple. Esse grupo desenvolveu os chips personalizados usados nos sistemas de assistência à condução Autopilot, conhecidos como HW3 e HW4, além dos chips de treinamento do supercomputador Dojo.

No entanto, parte desse talento deixou a empresa. Keller saiu em 2018. O engenheiro Ganesh Venkataramanan deixou a Tesla no final de 2023 após dificuldades no desenvolvimento do chip Dojo 2.

Em agosto de 2025, Musk cancelou completamente o projeto Dojo. Pouco depois, Bannon também deixou a companhia. Cerca de 20 engenheiros migraram para a startup DensityAI, fundada por Venkataramanan.

Mesmo com experiência em projeto de chips, a fabricação envolve outra categoria de profissionais. São engenheiros especializados em processos como litografia, gravação química, planarização mecânica, controle de rendimento e operação de equipamentos de litografia ultravioleta extrema.

Especialistas alertam para dificuldade

Musk também causou controvérsia ao comentar sobre a produção de semicondutores. Em janeiro, ele afirmou que a indústria estaria exagerando nas exigências de salas limpas usadas nas fábricas de chips. Segundo o empresário, seria possível produzir semicondutores em um ambiente onde ele poderia até comer um hambúrguer e fumar um charuto.

Especialistas contestaram a afirmação. Fábricas modernas operam em padrões extremamente rigorosos de limpeza, conhecidos como classe ISO um a três. Mesmo a respiração humana pode liberar milhões de partículas capazes de danificar chips fabricados em escala nanométrica.

O diretor executivo da Nvidia, Jensen Huang, também alertou sobre o desafio. Durante um evento da TSMC em novembro de 2025, ele afirmou que construir uma fábrica avançada de chips é extremamente difícil.

Segundo Huang, o desafio não está apenas na construção da instalação, mas no conhecimento acumulado em engenharia e ciência necessário para operar esse tipo de indústria. Ele chegou a afirmar que alcançar o nível tecnológico da TSMC é praticamente impossível.

Desafio bilionário para a Tesla

A ambição do Projeto Terafab é gigantesca. A TSMC levou décadas e investiu dezenas de bilhões de dólares para construir sua capacidade de fabricação de semicondutores.

A Intel, que já foi líder global do setor, enfrenta dificuldades há anos para recuperar sua vantagem tecnológica, mesmo após investir mais de US$ 100 bilhões.

A Samsung Electronics também investe pesadamente em seu negócio de semicondutores, mas ainda fica atrás da TSMC em rendimento de produção nos processos mais avançados.

Nesse cenário, a Tesla pretende sair de zero experiência em fabricação de chips para operar a maior fábrica de semicondutores de 2 nanômetros do mundo. A proposta inclui integrar no mesmo complexo o processamento lógico, armazenamento de memória e sistemas avançados de encapsulamento.

Se o projeto avançar, poderá representar uma das iniciativas industriais mais ambiciosas da história recente da tecnologia. Entretanto, especialistas alertam que transformar essa visão em realidade exigirá anos de desenvolvimento e investimentos bilionários.

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