A Tesla enfrenta a mais intensa crise trabalhista desde a inauguração da Gigafactory Berlin. O maior sindicato industrial da Alemanha, o IG Metall, acusa a montadora de criar um ambiente de trabalho tóxico, pressionar funcionários doentes e sobrecarregar equipes na fábrica de Grünheide. A escalada ocorre a duas semanas da eleição do conselho de trabalhadores, marcada para 2 de março a 4 de março, que pode redefinir as relações trabalhistas na única planta europeia da empresa.
Segundo o IG Metall, a gestão da Tesla estaria agindo com agressividade inédita contra a atuação sindical no país. O sindicato afirma que empregados adoecidos teriam sido pressionados a retornar ao trabalho, prática já denunciada anteriormente na unidade alemã.
O conflito ganhou contornos jurídicos. O IG Metall solicitou uma liminar à Justiça do Trabalho após a Tesla acusar um representante sindical de gravar secretamente uma reunião do conselho de trabalhadores. A empresa chamou a polícia, que apreendeu o computador do representante. Pela legislação alemã, gravar esse tipo de reunião sem autorização é crime. O sindicato nega qualquer gravação e acusa a montadora de difamação, pedindo investigação contra o diretor da fábrica, André Thierig.
A disputa ocorre em um momento sensível. Cerca de 11 mil funcionários estão aptos a votar na eleição do conselho. No pleito anterior, em 2024, o IG Metall obteve 39,4% dos votos e 16 das 39 cadeiras, mas não conquistou maioria. Agora, tenta ampliar sua influência.
A Tesla reagiu de forma contundente. A direção da fábrica rejeitou a adoção da jornada de 35 horas semanais, padrão no setor automotivo alemão, e sinalizou que um resultado favorável ao sindicato poderia comprometer novos investimentos. A empresa também concedeu aumento salarial de 4% e promoveu ações internas para reduzir a influência sindical.
O embate ocorre em meio a forte queda nas vendas da Tesla na Europa. Em 2025, a marca vendeu cerca de 235 mil veículos no continente, retração de 28%. Na Alemanha, as vendas despencaram 48%. Em janeiro de 2026, os registros caíram 44% em cinco grandes mercados europeus, com quedas de 88% na Noruega, 67% na Holanda e 57% no Reino Unido.
A Gigafactory Berlin tem capacidade superior a 375 mil unidades por ano, mas a demanda atual não absorve esse volume. Além disso, a empresa reduziu o quadro de funcionários de 12.415 para 10.703 empregados no último ano, corte de 14%, apesar de declarações públicas negando demissões.
A combinação de retração nas vendas, redução de pessoal e tensão sindical coloca a fábrica alemã sob pressão estratégica. O resultado da eleição pode definir o futuro das relações trabalhistas na unidade e influenciar os próximos passos da Tesla no maior mercado automotivo da Europa.

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