A chinesa XPeng reforçou sua aposta em inteligência artificial e deixou claro que pretende ir além da fabricação de veículos elétricos. Durante a conferência CVPR 2026, realizada em Denver, nos Estados Unidos, a empresa revelou que investe cerca de 300 milhões de yuans por mês apenas no treinamento de modelos de inteligência artificial.


O montante representa quase 3,6 bilhões de yuans por ano, mesmo para uma marca que entregou cerca de 200 mil veículos elétricos em 2025. O objetivo é acelerar a produção em larga escala do VLA 2.0, novo software de condução assistida e direção totalmente autônoma desenvolvido pela companhia.

Segundo o diretor do Centro de Inteligência Geral da XPeng, Dr. Xianming Liu, a empresa decidiu abandonar parte da arquitetura tradicional utilizada em sistemas autônomos. O executivo afirmou que a linguagem pode funcionar como um gargalo para veículos autônomos.

Na geração anterior do sistema, os dados captados pelas câmeras eram convertidos em comandos linguísticos antes da tomada de decisão. O VLA 2.0 elimina essa etapa intermediária para reduzir atrasos e aumentar a eficiência do processamento.

De acordo com a XPeng, um veículo elétrico captura aproximadamente dois bilhões de informações visuais por segundo por meio das câmeras, mas utiliza apenas entre 10 e 20 comandos para controlar direção, aceleração e frenagem. Para a empresa, transformar essas informações em descrições textuais gera processamento desnecessário e pode comprometer o tempo de resposta.

No novo sistema, a linguagem permanece apenas como forma de entrada para comandos de voz dados pelos ocupantes do veículo.

A XPeng informou que o VLA 2.0 já está presente em veículos vendidos ao consumidor final. No primeiro mês após a distribuição da atualização remota do software, mais de 50% da quilometragem percorrida com condução assistida pelos usuários já foi realizada utilizando o novo sistema.

A arquitetura suporta sistemas de assistência ao motorista de nível dois e operações totalmente autônomas de nível quatro. A montadora também revelou que já iniciou a produção do primeiro Robotáxi baseado na nova plataforma GX.

O modelo conta com capacidade computacional de 3.000 TOPS, sigla utilizada para medir trilhões de operações por segundo, permitindo que o veículo opere sem intervenção humana em ambientes complexos.

Além do VLA 2.0, a XPeng utiliza um chamado “modelo de mundo”, sistema responsável por interpretar as leis da física e prever o comportamento do ambiente ao redor do veículo.

Enquanto o VLA 2.0 aprende padrões de direção humana a partir de milhões de horas de uso, o modelo de mundo prevê movimentações de outros veículos e mudanças no trânsito em tempo real.

Para sustentar o sistema, a empresa desenvolveu três programas específicos: X-World, X-Foresight e X-Cache. Segundo a marca, o X-Cache reduz em cerca de 70% o processamento redundante sem comprometer significativamente a qualidade das imagens, permitindo que o software opere até 2,7 vezes mais rápido.

A estratégia de sensores da XPeng também chama atenção. Modelos como o P7 e o G7 utilizam um sistema principal baseado apenas em câmeras, seguindo uma linha semelhante à adotada pela Tesla.

Apesar disso, a fabricante chinesa mantém sensores tradicionais de segurança. Cada veículo elétrico conta com três radares de ondas milimétricas e 12 sensores ultrassônicos.

Segundo Dr. Liu, esses sensores não se comunicam diretamente com a inteligência artificial principal do veículo. Eles operam de forma independente em sistemas de frenagem automática de emergência e assistência corretiva de direção, funcionando como uma camada extra de segurança caso o sistema visual apresente falhas.

A XPeng também revelou detalhes sobre a escala de processamento utilizada para treinar seus modelos de inteligência artificial. O VLA 2.0 possui bilhões de parâmetros e é treinado com centenas de milhões de vídeos, consumindo mais de quatro trilhões de dados processáveis a cada atualização.

Mesmo com os altos custos, a empresa afirma ter ampliado significativamente a eficiência operacional. Nos últimos 12 meses, a XPeng aumentou em 4.360% a eficiência de treinamento individual e elevou a utilização de unidades de processamento gráfico de 40% para 90%.

A fabricante ainda possui uma reserva financeira de 47,66 bilhões de yuans.


O avanço da tecnologia gerou até uma aposta interna entre executivos da companhia. No ano passado, o CEO He Xiaopeng apostou publicamente com Dr. Liu que, caso o VLA 2.0 não alcançasse o mesmo desempenho do sistema de direção totalmente autônoma da Tesla até 30 de agosto de 2026, o executivo teria de atravessar nu a Golden Gate Bridge, na Califórnia.

Confiante, Dr. Liu afirmou que os testes internos realizados em cidades complexas como Pequim mostraram que o VLA 2.0 já alcançou desempenho semelhante às versões anteriores da Tesla e pode até superar sistemas mais recentes graças à complexidade do trânsito chinês.

A XPeng afirma que seus veículos elétricos funcionam como plataformas físicas para demonstrar sua capacidade em inteligência artificial e coletar dados para evolução contínua do software.

Essa visão explica o acordo firmado com a Volkswagen no início deste ano. A montadora alemã utilizará a arquitetura VLA 2.0 em veículos previstos para chegar ao mercado em 2027.

Além do setor automotivo, a XPeng pretende expandir sua atuação em inteligência artificial para robôs humanoides. A empresa prepara a produção em massa do robô “IRON” até o fim de 2026.

A expectativa é utilizar os robôs como assistentes de compras nas lojas da marca a partir do primeiro trimestre de 2027, ampliando a transformação da XPeng em uma companhia focada em inteligência artificial física.