Tesla amplia crise com direção autônoma

A Tesla enfrenta processos que podem custar até US$ 14,5 bilhões por problemas relacionados aos sistemas Autopilot e direção totalmente autônoma supervisionada. A situação ganhou novos capítulos após a própria montadora publicar vídeos promocionais que contradizem sua defesa nos tribunais.


Nos últimos dias, a empresa divulgou dois vídeos oficiais que mostram comportamentos considerados perigosos e até ilegais durante o uso da tecnologia. Em um deles, um motorista prepara café expresso enquanto o carro dirige sozinho. Em outro, gravado na Dinamarca, o veículo comete várias infrações de trânsito.

A principal linha de defesa da Tesla em processos judiciais é afirmar que o motorista deve supervisionar o sistema o tempo todo. Porém, os próprios materiais de divulgação da empresa passam uma mensagem diferente.

O primeiro caso aconteceu em 26 de maio. A conta oficial da Tesla na rede social X publicou um vídeo em que um motorista utiliza uma máquina portátil de café expresso enquanto o veículo trafega com a direção totalmente autônoma supervisionada ativada.

Nas imagens, o motorista aparece com as mãos fora do volante e sem olhar para a via. A publicação traz a frase: “Eu faço meu café expresso enquanto dirijo”.

A própria Tesla reforçou a mensagem ao escrever: “Com a direção totalmente autônoma supervisionada, seu Tesla pode levá-lo para qualquer lugar. Experimente você mesmo”.

Embora o vídeo inclua um aviso em letras pequenas informando que o sistema exige supervisão ativa do motorista e não transforma o carro em um veículo autônomo, o conteúdo mostra exatamente o contrário. O vídeo ultrapassou 5,6 milhões de visualizações.

Esse tipo de publicidade já havia sido alvo de críticas do Departamento de Veículos Motorizados da Califórnia, nos Estados Unidos. O órgão classificou a comunicação da Tesla como “claramente falsa”. Em vez de mudar sua estratégia, a empresa entrou na Justiça para tentar derrubar a decisão.

Pouco mais de duas semanas depois, em 9 de junho, a Tesla Europa divulgou outro vídeo para celebrar a aprovação da direção totalmente autônoma supervisionada na Dinamarca, o quarto país europeu a liberar o sistema. O empresário Elon Musk compartilhou o conteúdo em suas redes sociais.

O problema surgiu quando o jornal dinamarquês Politiken analisou as imagens gravadas na região central de Copenhague. Segundo a publicação, o veículo desrespeitou diversas leis de trânsito durante a gravação.

Entre as infrações identificadas estão circulação em faixa exclusiva para ônibus, conversão proibida à direita, desrespeito a placa de acesso proibido, entrada em rua fechada para carros e tráfego sobre ciclovia.

A Associação Automotiva da Dinamarca classificou as cenas como “preocupantes” e “bastante críticas”. A Tesla não comentou o caso.

As imagens ganham ainda mais peso porque foram produzidas, editadas e divulgadas pela própria montadora para celebrar a aprovação regulatória da tecnologia no país europeu.

Enquanto isso, a Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário dos Estados Unidos mantém uma investigação aberta sobre a segurança da direção totalmente autônoma supervisionada em cerca de 3,2 milhões de veículos da Tesla. O órgão já reúne mais de 80 registros de possíveis infrações ligadas ao sistema.

A pressão jurídica também aumentou após uma decisão judicial nos Estados Unidos condenar a Tesla a pagar US$ 243 milhões às vítimas de um acidente fatal envolvendo o Autopilot no chamado caso Benavides. A decisão foi mantida por um juiz federal em fevereiro de 2026, mesmo após tentativa da empresa de anular o veredito.

Antes do julgamento, a Tesla havia recusado um acordo de US$ 60 milhões.

Atualmente, a montadora enfrenta ao menos 21 frentes judiciais diferentes. Entre elas estão processos ligados a cerca de 50 acidentes fatais envolvendo o Autopilot e a direção totalmente autônoma supervisionada, ações coletivas por propaganda enganosa e acusações de fraude na China.

Segundo especialistas, a principal discussão nos tribunais é saber se a Tesla alertou corretamente os motoristas sobre as limitações da tecnologia ou se incentivou confiança excessiva no sistema.

Os vídeos recentes podem se transformar em provas importantes para os advogados das vítimas. Em um deles, a empresa incentiva o uso do sistema enquanto um motorista prepara café. No outro, o carro aparece cometendo infrações de trânsito em material promocional oficial.

A situação ficou ainda mais delicada após relatos de que a Tesla alterou contratos antigos da direção totalmente autônoma supervisionada para incluir posteriormente o termo “supervisionada”, reforçando suspeitas de que a comunicação original poderia induzir consumidores ao erro.

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