A Tesla está sendo acusada de modificar retroativamente contratos antigos relacionados ao pacote de direção totalmente autônoma, conhecido anteriormente como “Capacidade de Direção Totalmente Autônoma”. Proprietários afirmam que documentos originais foram alterados para incluir o termo “supervisionada”, expressão que não existia quando o sistema foi vendido entre 2016 e o início de 2024.
A denúncia ganhou força após diversos donos de veículos da marca relatarem problemas para acessar contratos antigos. Em alguns casos, os arquivos simplesmente deixaram de funcionar dentro da conta da Tesla.
O caso foi revelado pela imprensa e envolve principalmente veículos equipados com o hardware HW3, utilizado pela fabricante entre 2016 e 2023. Segundo os relatos, apenas os documentos ligados à compra do sistema de direção totalmente autônoma ficaram inacessíveis. Outros contratos da mesma conta continuam funcionando normalmente.
Um dos proprietários afetados é Oliver Abcarius. Ele comprou o pacote de direção totalmente autônoma para seu Model 3 2018 em 12 de agosto de 2019. Ao tentar recuperar o contrato para montar um pedido de reembolso, percebeu que o documento original havia sido alterado.
Segundo Abcarius, o contrato de 2019 não citava qualquer necessidade de supervisão humana. Agora, o arquivo original direciona para uma página inválida.
O mesmo problema teria ocorrido com o Model Y 2020 de sua esposa, adquirido em 29 de maio de 2020 com o sistema já incluído na compra. O contrato do veículo também não pode mais ser acessado.
De acordo com os relatos, apenas os documentos relacionados ao pacote de direção totalmente autônoma apresentam falhas. Contratos de veículos sem o sistema continuam disponíveis normalmente nas contas dos usuários.
A cronologia do caso é considerada importante para as ações judiciais em andamento contra a Tesla.
Entre 2016 e o início de 2024, a montadora vendeu o pacote “Capacidade de Direção Totalmente Autônoma” por valores que chegaram a US$ 15 mil, prometendo que os carros se tornariam totalmente autônomos por meio de atualizações remotas de software.
Durante anos, o CEO Elon Musk afirmou que a condução totalmente autônoma sem supervisão humana estava próxima de se tornar realidade. As promessas eram repetidas praticamente todos os anos desde 2018.
A mudança oficial ocorreu em março de 2024, quando a empresa renomeou o sistema para “Direção Totalmente Autônoma Supervisionada” junto da atualização FSD v12.3.3. Pela primeira vez, a Tesla passou a afirmar claramente que o sistema não transforma o veículo em um carro autônomo.
Em abril de 2026, Musk confirmou que veículos equipados com o hardware HW3 não conseguirão atingir direção totalmente autônoma devido a limitações físicas do sistema. Isso significa que milhões de carros vendidos com a promessa original jamais alcançarão o nível de autonomia anunciado, a menos que recebam um novo conjunto de hardware, algo que ainda não possui plano oficial de implementação.
O episódio também reacende críticas sobre a forma como a Tesla lida com informações antigas relacionadas ao sistema.
Em agosto de 2024, a montadora removeu de seu site uma publicação de outubro de 2016 que afirmava que todos os veículos produzidos pela empresa, incluindo o Model 3, já possuíam o hardware necessário para direção totalmente autônoma com segurança superior à de um motorista humano.
Agora, com contratos antigos supostamente se tornando inacessíveis, especialistas apontam que a situação pode complicar ainda mais a defesa da Tesla em processos bilionários.
Atualmente, a empresa enfrenta ações judiciais relacionadas a propaganda enganosa, acidentes envolvendo o piloto automático e suposta fraude contra investidores. O valor total das disputas pode chegar a US$ 14,5 bilhões.
Nos Estados Unidos, uma ação coletiva já certificada abrange declarações feitas pela Tesla sobre direção totalmente autônoma entre outubro de 2016 e agosto de 2024, exatamente o período dos contratos afetados.
Além disso, autoridades da Califórnia concluíram que a empresa utilizou publicidade enganosa ao promover o sistema. Em outro caso, um árbitro determinou que a Tesla devolvesse US$ 10,6 mil a um comprador do pacote, entendendo que a companhia descumpriu o contrato original.
Processos semelhantes também avançam na China e em países da Europa.
Para advogados e especialistas envolvidos nessas ações, os contratos originais de compra do sistema são considerados provas fundamentais.

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