As baterias de estado sólido são apontadas há anos como a próxima grande revolução dos carros elétricos. A promessa inclui autonomia muito maior e recargas extremamente rápidas. No entanto, a maior fabricante de baterias do mundo acaba de fazer um alerta importante: a tecnologia ainda está longe de chegar ao mercado em larga escala.
Robin Zeng, presidente da CATL, afirmou que as baterias de estado sólido ainda precisam superar desafios técnicos e produtivos antes de se tornarem viáveis para milhões de veículos. Segundo as projeções da empresa chinesa, a comercialização em grande escala não deverá acontecer antes de 2030.
De acordo com a CATL, a indústria só poderá considerar a tecnologia plenamente comercial quando a produção alcançar a marca de 1 milhão de veículos equipados com essas baterias. Mesmo quando isso acontecer, os primeiros modelos deverão ser veículos premium, já que os custos de fabricação ainda serão elevados.
Na prática, os primeiros carros elétricos com baterias de estado sólido deverão ocupar faixas de preço superiores a 250 mil yuans, valor equivalente a cerca de 31,5 mil euros. Embora o número pareça competitivo em alguns mercados, na China ele representa um segmento de veículos mais sofisticados.
O principal desafio está na própria construção das células da bateria. Atualmente, a tecnologia de estado sólido está apenas no nível quatro de uma escala de maturidade tecnológica que vai até nove. Isso significa que ela ainda se encontra em fase de laboratório e de desenvolvimento de protótipos.
Um dos maiores obstáculos é a união perfeita entre os materiais sólidos que compõem a bateria. Para isso, os fabricantes precisam aplicar pressões extremamente altas, chegando a cerca de 6.000 atmosferas. Nessas condições, materiais com densidades diferentes podem sofrer desalinhamentos, aumentando a resistência interna e acelerando o desgaste das células.
Enquanto as baterias de estado sólido não ficam prontas, a indústria continua apostando nas baterias convencionais com eletrólito líquido para atender à crescente demanda global por carros elétricos.
A própria CATL registrou forte expansão nesse segmento. Em maio de 2026, a empresa alcançou capacidade instalada de 33,08 GWh, acima dos 29,06 GWh registrados em abril do mesmo ano.
Os números mostram que as baterias de fosfato de ferro-lítio continuam dominando o mercado. Em maio de 2026, essa tecnologia respondeu por 23,12 GWh do volume total instalado. Já as baterias de lítio ternário somaram 9,96 GWh.
A tendência também foi observada nos meses anteriores. Em abril, as baterias de fosfato de ferro-lítio alcançaram 19,53 GWh, enquanto as de lítio ternário chegaram a 9,53 GWh. Em março, os volumes foram de 18,11 GWh e 7,60 GWh, respectivamente.
Buscando reduzir a dependência de matérias-primas raras, os fabricantes também investem em tecnologias alternativas. Entre elas estão as baterias de íons de sódio, que prometem maior durabilidade ao longo dos ciclos de recarga.
O desenvolvimento das baterias de estado sólido também exige investimentos gigantescos. Segundo estimativas do setor, apenas a pesquisa de eletrólitos à base de sulfeto requer aportes acumulados de cerca de 10 bilhões de yuans, equivalentes a aproximadamente 1,26 bilhão de euros.
Diante desses custos elevados, as baterias convencionais continuarão sendo o foco da indústria por vários anos, até que as tecnologias de estado sólido atinjam um nível competitivo de preço.
Enquanto isso, algumas montadoras buscam soluções intermediárias. A Dongfeng Motor, por exemplo, pretende lançar ainda no segundo semestre de 2026 uma bateria composta que combina diferentes materiais.
Segundo a fabricante, o novo conjunto alcança densidade energética de 350 Wh/kg, permitindo autonomia superior a 1.000 quilômetros com uma única carga. Além disso, o sistema reduz o peso total da bateria em 30% em comparação com conjuntos convencionais.
Outro benefício está no desempenho em baixas temperaturas. Testes realizados em Mohe, cidade conhecida pelos invernos rigorosos na China, mostraram que os veículos mantiveram mais de 74% da capacidade nominal da bateria mesmo sob temperaturas de menos 30 graus Celsius.
Embora os carros de passeio ainda precisem esperar pela produção em massa, o setor aeroespacial já começa a utilizar baterias de alta densidade energética. A fabricante de drones Ehang realizou recentemente um voo sobre o Estreito de Qiongzhou utilizando uma bateria de estado sólido de lítio-metal com densidade de 480 Wh/kg, fornecida pela Shenzhen Neox.
O feito demonstra que a tecnologia já funciona em aplicações específicas. Porém, para chegar aos carros elétricos vendidos em concessionárias, ainda serão necessários vários anos de desenvolvimento e investimentos.

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