A Stellantis avalia produzir veículos elétricos de sua parceira chinesa Leapmotor em uma fábrica desativada em Brampton, no Canadá. A proposta, ainda em estágio inicial, já enfrenta forte oposição política e sindical, especialmente por envolver um modelo de montagem com baixo impacto na geração de empregos locais.
A planta de Brampton está parada há mais de dois anos. Inicialmente, a montadora havia prometido modernizar o local para fabricar o modelo Jeep Compass elétrico, dentro de um investimento de 3,6 bilhões de dólares canadenses, com mais de 529 milhões em subsídios federais. O acordo previa a manutenção de 4.475 empregos em tempo integral no país e produção ativa até dezembro de 2035.
O plano, porém, foi abandonado em outubro de 2025, quando a empresa decidiu transferir a produção para os Estados Unidos, alegando que tarifas comerciais tornaram a operação no Canadá inviável. Desde então, o governo canadense tenta recuperar parte dos incentivos concedidos.
Agora, a Stellantis propõe montar veículos da Leapmotor a partir de kits pré-fabricados enviados da China. Esse modelo, conhecido como kits desmontados, consiste em importar componentes praticamente prontos e apenas realizar a montagem final no país de destino, com pouca participação da cadeia produtiva local.
A ideia gerou reação imediata. O primeiro-ministro da província de Ontário, Doug Ford, classificou a proposta como inaceitável e afirmou ser totalmente contra o plano. Segundo ele, esse tipo de operação emprega muito menos trabalhadores do que uma fábrica tradicional e exclui fornecedores canadenses.
O sindicato Unifor, que representa cerca de 3.000 trabalhadores demitidos da unidade, também criticou duramente a iniciativa. A presidente nacional da entidade, Lana Payne, afirmou que o projeto não configura produção industrial real e criaria poucos empregos.
Especialistas do setor reforçam as preocupações. Flavio Volpe, da associação de fabricantes de autopeças do Canadá, alertou que a medida pode excluir centenas de fornecedores locais da cadeia automotiva.
O contexto geopolítico também pesa. Em janeiro, o primeiro-ministro Mark Carney fechou acordo com o presidente chinês Xi Jinping para reduzir tarifas sobre veículos elétricos chineses de 100% para 6,1%. O pacto permite a entrada de até 49.000 veículos inicialmente, chegando a 70.000 em cinco anos.
Apesar disso, há um obstáculo relevante. Os Estados Unidos já sinalizaram que não aceitarão a entrada indireta de veículos chineses por meio do Canadá. Propostas políticas no país incluem tarifas elevadas e restrições a veículos com tecnologia chinesa, o que limita o potencial de exportação.
A Stellantis afirma apenas que avalia alternativas para a fábrica de Brampton, buscando garantir sustentabilidade econômica em qualquer decisão futura. Ao mesmo tempo, a empresa tenta reduzir custos no desenvolvimento de veículos elétricos, área em que a Leapmotor tem se destacado com modelos mais acessíveis.
A possível parceria, portanto, evidencia um dilema estratégico. De um lado, a busca por veículos elétricos mais baratos. De outro, o risco de enfraquecer a indústria local ao priorizar soluções baseadas em importação e montagem simplificada.

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