Durante a teleconferência de resultados do quarto trimestre e do ano fiscal de 2025, a Tesla voltou a colocar o serviço de robotáxis no centro do discurso. O CEO Elon Musk falou sobre um crescimento acelerado da frota paga, lançada em Austin neste ano, mas os dados públicos disponíveis não sustentam o ritmo apresentado.
Questionado sobre a expansão do programa e as limitações atuais, Musk respondeu que a Tesla já teria mais de 500 veículos transportando clientes pagantes entre Austin e a região da Baía de São Francisco. Segundo ele, a frota estaria em uma curva exponencial, com potencial para dobrar de tamanho todos os meses.
Na prática, o cenário é bem mais limitado. O serviço começou em junho, em Austin, com operadores humanos sentados no banco do passageiro. Mesmo assim, os veículos apresentaram falhas frequentes e um índice de acidentes superior ao de motoristas humanos. A promessa de cobrir metade da população dos Estados Unidos até o fim do ano não se concretizou.
Atualmente, a Tesla opera o chamado Robotaxi em apenas duas regiões, mas com restrições importantes. Na Califórnia, os carros usados no serviço têm um operador humano no banco do motorista. A legislação local impede a oferta de corridas totalmente autônomas ao público, o que faz do nome Robotaxi apenas uma estratégia de marketing nesse caso.
Em Austin, os operadores chegaram a ser deslocados para um carro de apoio por alguns dias, o que deu a impressão de operação sem motorista. Análises independentes indicaram que essa configuração não se manteve e que veículos realmente sem supervisão não estavam circulando de forma contínua.
A declaração de Musk sobre uma frota acima de 500 carros também gera dúvidas, já que não há evidências públicas que confirmem esse número. Além disso, somar os dados de Austin e da Califórnia distorce a análise, pois os dois sistemas funcionam de maneiras distintas.
Mais controversa ainda é a projeção de crescimento mensal. Se a frota realmente dobrasse a cada mês, partiria de 500 veículos para mais de 2 milhões em 12 meses. Esse número supera a própria capacidade anual de produção da Tesla e exigiria que praticamente todos os carros fabricados fossem destinados ao serviço de robotáxi.
Outra hipótese seria incorporar veículos já vendidos ao programa. Essa ideia não é nova. Há anos, Musk afirma que proprietários com o pacote de direção totalmente autônoma poderiam colocar seus carros para trabalhar como táxis, gerando renda. A promessa nunca se concretizou, apesar de clientes terem pago até US$ 15.000 pelo sistema no passado.
No mesmo balanço, a Tesla revelou pela primeira vez que possui 1,1 milhão de assinaturas ativas de direção totalmente autônoma. Mesmo que todos esses proprietários aceitassem integrar a frota de robotáxis, o que é improvável, ainda assim o número ficaria aquém das projeções mais ambiciosas.
Além disso, a própria empresa reconheceu que cada nova área geográfica exige um extenso trabalho de adaptação a situações específicas do tráfego local. Isso contradiz a narrativa anterior de um sistema facilmente escalável por meio de simples atualizações de software.
O discurso otimista apresentado na teleconferência reforça um padrão já conhecido. As promessas de crescimento rápido e em larga escala não acompanham a realidade operacional observada até agora. A expansão do Robotaxi, ao que tudo indica, será lenta, complexa e distante da ideia de dobrar de tamanho mês a mês.

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